A presença indisponível a que condenamos as nossas crianças é desumanizadora
Escrito por Psicóloga Nárrina Gabrieli Ramos Pereira CRP 06/159448
Publicado em 17 Aug, 2025
Numa noite dessas de dia útil, depois de horas de trabalho, fui levar as roupas pra lavar. Na lavanderia, 2 adultos entregaram o controle remoto da TV na mão de alguém com seus 7 ou 8 anos de desenvolvimento, enquanto os mais velhos se distraiam entre anúncios de produtos que corriam por suas pequenas telas individuais.
Depois de alguns minutos do primeiro ciclo de lavagem, meus ouvidos achando que ainda trabalhavam, me colocaram atenta àquele pequeno universo. Uns grunhidos não-verbais por atenção, interação e vitalidade não correspondidos porque a Família se concentrava na compra de um novo ventilador de teto antes que chegasse o próximo temido verão-de-colapso-climático que ameaça o litoral paulista.
Quantas coisas são mais importantes que corresponder ao chamado de alguém que ainda aprende o que existe e pode existir nessa coisa estranha, poluída e hostil que chamamos de mundo?
Como é que podemos nos queixar da epidemia em curso de crianças com condições de desenvolvimento que afetam, sobretudo, o desenvolvimento de habilidades de comunicação?
Qual foi a última vez que você conversou com uma criança?
Imagem de @hadyboraey