Voltar aos artigos

Depois do medo, o mundo

Grupo Reinserir

Hoje, quando você entrou pela porta, havia algo diferente.

Não era um sorriso amplo, nem uma mudança brusca, era um detalhe, um movimento sutil, quase imperceptível para quem não sabe ver.

Mas eu vi.

Vi o jeito como seus ombros estavam menos curvados, como se o corpo tivesse finalmente lembrado que não precisa mais se encolher para sobreviver ao que te machucava.

Vi o olhar que não desviou tão rápido, como se permitisse pela primeira vez, em muito tempo, ocupar o próprio espaço. Vi um fio de luz onde, semanas atrás, só havia o peso de uma relação que te deixou pequeno.

E ali, no meio da frase que você interrompeu para respirar, eu percebi: você está voltando.

Voltando para o seu centro. Voltando para o que faz sentido. Voltando para si.

É real: você está voltando pra você.

E isso não acontece de um dia pro outro, nem vem com trilha sonora de superação. É devagar, meio torto, meio desconfiado.

Hoje, enquanto você falava, eu não pensei em vitória; pensei em respiro. É duro.

A clínica coloca a gente diante de violências que se repetem Mas também é bonito.

Bonito te ver retomando espaço, recuperando a voz, reconstruindo a vida depois do que te feriu.

Bonito perceber que você respira um pouco mais fundo, fala um pouco mais firme. No fim, acompanhar processos assim é estar entre duas forças: a violência que você atravessou e a coragem que você mobiliza para seguir.

E isso exige muito de mim também.

Mas é justamente nesse intervalo, entre o que te machucou e o que você cria de novo, que eu vejo o sentido do trabalho.

E, ainda que doa às vezes, é nesse lugar que eu escolho permanecer com você, na parte possível, no tempo que for.

E lembre, Você é gigante.

Imagem: pinterest