Voltar aos artigos

Nada sobre a gente sem a gente

Grupo Reinserir

É cada vez mais comum ver espaços de construção coletiva – muitas vezes erguidos com as mãos, os corpos e os afetos de pessoas negras, LGBTs, periféricas – sendo “visitados” por instituições ou sujeitos que carregam consigo o selo do prestígio, da elite intelectual ou cultural.

A cena é quase sempre parecida: gente que chega com escuta treinada para captar o que pode ser útil, mas não necessariamente o que pode ser desconfortável. Observam, anotam, absorvem a estética, o vocabulário, o discurso. Reproduzem mais tarde em palcos, salas de aula, congressos, editoriais de revistas… mas sem carregar, junto, o compromisso ético com os corpos que produziram aquele saber – muitas vezes a partir da dor, da precariedade, da exclusão.

A crítica não é à presença, mas à forma como ela se dá. Porque o verdadeiro encontro exige descentramento, exige que se esteja disposto a ser afetado, a mudar práticas, a questionar privilégios. Mas o que se vê, com frequência, é um extrativismo sofisticado: retira-se dali o que convém, sem que se toque nas estruturas que sustentam o abismo social.

Esses espaços populares e insurgentes não estão produzindo apenas conteúdo. Estão inventando formas de vida, redes de cuidado, estratégias de sobrevivência e resistência diante de um mundo que insiste em descartá-los. São tecnologias sociais ancestrais e atuais, práticas que não cabem nos moldes eurocentrados e normativos. São, muitas vezes, experiências vividas com o risco do corpo – e não só com o conforto da teoria.

Quando a elite visita esses espaços sem se deixar atravessar, o que ocorre é uma estetização da luta, uma vitrine de diversidade sem redistribuição de poder. É preciso perguntar: o que se leva desses encontros e o que se deixa? Quem é celebrado depois e quem continua sendo invisibilizado?

É urgente que o saber construído por pessoas negras, trans, periféricas, não seja apenas citado, mas que seja seguido. Que essas vozes não sejam apenas consultadas, mas que ocupem os centros decisórios, os palcos, os editais, os currículos.

A visita só vale se houver escuta. E a escuta só vale se houver transformação.

Imagem: cada cabeça, um igbá, 2024. @ganzalarts