Voltar aos artigos

Preto, velho e coxo

Grupo Reinserir

A morte é uma presença constante na vida, mas raramente somos ensinados a lidar com ela. Na nossa cultura, aprendemos a evitar o assunto, a falar baixo, a seguir como se o fim não fizesse parte do caminho. Mas quando ela chega, nos atravessa inteira, lembrando que não controlamos o tempo.

Na clínica, a morte ganha contornos delicados. Ela não é apenas o fim de um acompanhamento, mas a interrupção de um vínculo construído encontro após encontro, café após café, palavra após palavra. Entre trocas e silêncios. Cada paciente leva consigo um pedaço de nós, e deixa, em contrapartida, marcas que permanecem no espaço, no trabalho e na memória coletiva.

Recentemente, no Reinserir, nos despedimos de alguém que se apresentava como “Preto, Velho e Coxo”, um nome que carregava memória, luta, sabedoria e humor, e que dizia muito sobre quem ele era. Sua presença ultrapassou o espaço terapêutico: foi convivência, resistência e inspiração. Ele nos lembrava, toda semana, que estar vivo é também criar sentido no simples ato de estar junto.

Perder um paciente é doloroso, mas também é um chamado para continuarmos cuidando, lembrando e resistindo. “Preto, Velho e Coxo” seguirá presente nas histórias que contamos, nas risadas e na força que manteve este espaço vivo.

Porque alguns encontros não terminam, eles se transformam.