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Quem acolhe a denúncia de uma louca?

Grupo Reinserir

Reescrevi essas frases algumas dezenas de vezes buscando uma forma ética de contar pra você o que tenho pensado a partir das minhas experiências de trabalho. Afinal, nossa produção textual, “literária”, é sobre isso.

Talvez eu não consiga e você sinta uma dúvida genuína sobre o quão ético este texto pode não ser. Afinal, parte do nosso trabalho é também sujar aquilo que a hegemonia chama por “ética”.

Indo aos fatos, o que fazer quando alguém que convive com um delírio, já medicalizado, traz à tona uma denúncia de violência?

Os serviços de saúde e assistência social não sabem muito bem também.

De imediato, o discurso da vítima é posto em posição de dúvida. Em seguida, a preocupação com formalizar todos os movimentos a fim de proteção institucional. Por fim, pouco ou quase nada é sobre aquele processo de vida de onde emergiu o conteúdo objeto de intervenção. Um esvaziamento tremendo do porquê estamos ali.

Agora, você já percebeu que escrevi enquanto queria bater na mesa e gritar com quem dirige o meu trabalho.

Do fundo da minha insignificância sugiro uma pista possível: movimentar as relações em torno, acessar o território e compreender qual a base concreta de onde parte esse discurso. Dimensionar a violência. A loucura por si só já é denúncia. A questão é: qual, como e quando há a necessidade de intervenção?

Se você me lê até aqui, lembre-se de não desmentir as próximas denúncias que ouvir. Preocupe-se em compreender.

Se você me lê enquanto trabalhador da saúde e da assistência; se mexa. Se incomode. Se envolva. A sua função política é essa e ser mal pago não diminui o impacto dela.

Imagem: @susanocorreia