Quem acolhe a denúncia de uma louca?
Escrito por Psicóloga Nárrina Gabrieli Ramos Pereira CRP 06/159448 e Psicóloga Natália Aparecida da Silva CRP 06/144439
Publicado em 15 Oct, 2025
Reescrevi essas frases algumas dezenas de vezes buscando uma forma ética de contar pra você o que tenho pensado a partir das minhas experiências de trabalho. Afinal, nossa produção textual, “literária”, é sobre isso.
Talvez eu não consiga e você sinta uma dúvida genuína sobre o quão ético este texto pode não ser. Afinal, parte do nosso trabalho é também sujar aquilo que a hegemonia chama por “ética”.
Indo aos fatos, o que fazer quando alguém que convive com um delírio, já medicalizado, traz à tona uma denúncia de violência?
Os serviços de saúde e assistência social não sabem muito bem também.
De imediato, o discurso da vítima é posto em posição de dúvida. Em seguida, a preocupação com formalizar todos os movimentos a fim de proteção institucional. Por fim, pouco ou quase nada é sobre aquele processo de vida de onde emergiu o conteúdo objeto de intervenção. Um esvaziamento tremendo do porquê estamos ali.
Agora, você já percebeu que escrevi enquanto queria bater na mesa e gritar com quem dirige o meu trabalho.
Do fundo da minha insignificância sugiro uma pista possível: movimentar as relações em torno, acessar o território e compreender qual a base concreta de onde parte esse discurso. Dimensionar a violência. A loucura por si só já é denúncia. A questão é: qual, como e quando há a necessidade de intervenção?
Se você me lê até aqui, lembre-se de não desmentir as próximas denúncias que ouvir. Preocupe-se em compreender.
Se você me lê enquanto trabalhador da saúde e da assistência; se mexa. Se incomode. Se envolva. A sua função política é essa e ser mal pago não diminui o impacto dela.
Imagem: @susanocorreia