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Terapia não é salvação - e você não é (nem deveria ser) salvadora

Grupo Reinserir

Em uma tentativa de salvar a relação, ela disse: “se você não for pra terapia, não dá mais”. E ele foi. Marcou a sessão, sentou no consultório, mas ficou em silêncio. Não se envolveu, não elaborou nada. Depois de algumas idas mornas, voltou com um diagnóstico simples: “essa terapeuta não é boa, quero trocar”. E o ciclo recomeça — com ela investindo esperança, tempo e afeto na ideia de que, com o terapeuta certo, o namorado vai finalmente mudar.

É compreensível desejar que o outro melhore. Mas colocar alguém na terapia como condição para manter uma relação, sem que essa pessoa tenha real interesse na transformação, é como tentar encher um copo furado. A terapia não funciona por imposição. Não é correção de rota forçada, nem um manual de conserto rápido para comportamentos ruins. É um processo que exige desejo, presença e responsabilidade — e ninguém pode desejar pelo outro.

A lógica de colocar o parceiro na terapia como solução para uma relação ruim frequentemente recai sobre as mulheres, socialmente educadas para cuidar, compreender, acolher e, no limite, consertar o outro. Muitas vezes, quem propõe a terapia como “última chance” está exausta de repetir, de explicar, de aguentar sozinha o peso da relação. E aposta nessa saída como esperança de salvação. Mas há algo perigoso nesse gesto: a fantasia de que o amor, ou o empurrão certo, vai mudar o outro.

A terapia pode sim transformar vidas, reconstruir vínculos, abrir caminhos. Mas ela não é um atalho para a harmonia conjugal, nem um investimento com retorno garantido. Essa expectativa afeta não apenas a saúde psíquica, mas também esvazia o verdadeiro sentido do processo terapêutico.

A verdade é dura, mas libertadora: não adianta empurrar alguém para dentro de um processo que só faz sentido quando é vivido por vontade própria. Se ele não fala, não se envolve, não se permite, talvez não seja porque o terapeuta é ruim —pode ser que ele não esteja disponível. E talvez, em vez de insistir que ele mude, o mais honesto seja se perguntar: por que continuo aqui, tentando salvar alguém?

Imagem: @susanocorreia